(Sem título…alguma sugestão?)

fevereiro 9, 2008

            

            Acordou e se viu rodeado pelo cotidiano. Levantou suspirando como há tempos fazia e já se acostumava, parecendo nunca conseguir dormir e estar sempre exausto de tanto trabalho. Foi ao banheiro, olhou-se no espelho e viu o reflexo já envelhecido, o cabelo bagunçado e a barba por fazer. Ligou o chuveiro e entrou na água fria, pulando para esquentar-se, fez a barba. Olhou para baixo percebendo que sua barriga crescia devido à idade, e riu disso. Gargalhou, como há tempos não fazia. E de repente, começou a chorar.

            Sentou-se a mesa, olhou sua esposa como se não a conhecesse, sorriu e a beijou como se nunca a tivesse beijado. Abraçou seu filho, olhou-o dentro dos olhos, encarando-o, e os seus encheram-se d’água. Uma gota escorreu umedecendo seu nariz e seus lábios. Secou sua face e sentou-se novamente para tomar café da manhã. Olhou o sol através da janela, e o dia estava lindo. Os raios solares o iluminavam fazendo-o refletir. E refletiu.

            Voltou ao quarto para arrumar-se como sempre. Colocou seu melhor terno, sua melhor gravata e o sapato italiano que lhe fora dado pelo pai um mês antes de sua morte. Foi ao banheiro escovar os dentes, evitando o espelho, demonstrando certa vergonha de si mesmo, como se sua consciência pesasse. Novamente refletiu sobre a vida, e como se isso lhe fizesse mal, vomitou seu café no vaso sanitário ao seu lado. Havia feito alguma coisa e isso não lhe fazia nada bem.

            Entrou no carro com a sensação de que algo, que ele ainda não sabia o quê, dera errado. E este sentimento lhe consumia por dentro o fazendo tremer de medo. Suou frio e ligou o carro. Olhou à frente, respirou profundamente, passou a primeira marcha e acelerou.

            Chegou à sede da empresa, e com certa repulsa, seu estômago embrulhou-se. Enxugou a testa fria e branca. Olhou a cabeça quase sem cabelos, pensando que dali para frente iria perder muito mais em uma velocidade incrível. Conferiu se estava tudo certo, se tinha tudo as mãos. Deu um suspiro e saltou do carro. Olhou para cima, fazendo sua vista alcançar o último andar, o quadragésimo – quinto.

            Passou pela portaria, cumprimentando a todos como nunca fizera, gesto que fora estranhado até pelos seus mais antigos funcionários, pois muitos deles haviam sequer o visto em 15 anos de trabalho. Não subira pelo elevador reservado como fazia de costume, e sim pelo de funcionários. Estes se entreolhavam, cumprimentavam-no, alguns até tentaram apresentar-lhe propostas de projetos, mas ele estava absorto.

            Subiu ao seu escritório no topo do prédio. Entrou na sala, olhou pela janela a cidade cinza. Os carros passavam em um ritmo frenético, assim como as pessoas extasiadas pelo consumo, pelo ter, esquecendo completamente o ser. Fechou os olhos, e pensou em tudo que havia construído. Uma vida perdida. Não mais amava sua esposa, mal via seu filho, não sentia mais prazer em ter poder como sentira antes.

            Abriu a janela grande, ouviram-se gritos e freadas de carros. A cidade parou por um breve momento. Anjos e demônios disputaram sua alma. E a vida continuou.

 

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Uma resposta to “(Sem título…alguma sugestão?)”

  1. Gabriel said

    É legal ler um bom texto quando está em casa sem fazer nada.

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